Comitê contrata ONGs para captura e vacinação durante eventos. Animais serão colocados para adoção.

Concentração, preparo físico, paciência e estratégia não são habilidades que só os atletas olímpicos precisam ter nos Jogos Rio 2016. Desde a última quarta-feira (3), Eduardo Pedroso e Mariana Lança, fundadores da ONG Bicho Brother, e Jackson Ferreira, da ONG JF Restages e Capturas, tiveram de colocar todas essas competências à mostra para realizar um trabalho que ninguém imaginaria ocorrer durante os Jogos: o resgate de animais de rua que habitam as regiões onde ocorrerão as competições. Em duas semanas de atuação, resgataram cerca de 50 gatos e cachorros nas redondezas do Maracanã.

O grupo de profissionais foi chamado para uma força-tarefa da comissão especial de sustentabilidade do Comitê Olímpico, cujo objetivo é minimizar os impactos dos Jogos na vida dos animais na cidade. Todas as ONGs envolvidas no projeto atuam sob o comando de uma das maiores organizações de proteção animal, a World Animal Protection.

A Bicho Brother, por exemplo, é especializada no trabalho de CED de gatos, sigla que significa castração, esterilização e devolução. Nesse tipo de operação, os animais são capturados, tratados, vacinados, vermifugados e devolvidos ao lugar onde foram encontrados. Nessa Olimpíada, contudo, os bichinhos resgatados terão a chance de encontrar um lar. Isso porque o Comitê providenciou um espaço para hospedagem dos animais e promoverá feiras de adoção semanal durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. A primeira delas deve ocorrer na Barra da Tijuca neste sábado, em frente à clínica Città Vet, na Barra da Tijuca. O projeto conta com o apoio de diversas ONGs, clínicas veterinárias e até da Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais do Rio.

No final, os animais que não conseguirem um lar definitivo, serão devolvidos para suas colônias. Alguns gatos, por exemplo, são “ferais”, ou seja, não se adaptam ao convívio com humanos. Há outros, contudo, que são alvo de preconceito. “As pessoas geralmente não querem adotar cães e gatos mais velhos. Também existe muito preconceito com cor da pelagem”, lamenta Pedroso. Infelizmente, não é possível encontrar um lar para todos, mas é possível garantir melhores condições a todos eles. “O CED é uma forma de fazer um controle ético da população de animais de rua, além de permitir que eles tenham uma vida mais digna, pois foram tratados e imunizados”, conta. Cães e gatos de rua estão vulneráveis a todos os tipos de maus tratos. Por isso, é importante evitar a proliferação descontrolada de animais.

Em lugares onde existem colônias de gatos é muito comum encontrar tratadoras voluntárias. No Complexo Maracanã, por exemplo há um grupo de dez senhoras que levam comida todos os dias para os bichanos há mais de vinte anos. Estima-se uma população de 130 gatos no local, número que rapidamente poderia subir para 700 sem o trabalho de castração da ONG. “As voluntárias do Maracanã estão acompanhando o nosso trabalho de perto e colaborando com tudo. Elas fazem questão de garantir que os gatos ficarão bem”, explica.

Para os resgates, Pedroso precisa antes recolher informações sobre a colônia de animais e são geralmente as tratadoras voluntárias que auxiliam nessas horas. Como funciona? A ONG atua no momento em que a população é alimentada, pois é preciso que os animais estejam com fome. Os profissionais espalham gaiolas especiais para o resgate de gatos na área, junto com um pouco de ração. Quando os bichanos entram na “armadilha” são levados de van para o veterinário. “Tudo é feito rapidamente e com muito cuidado para que o gato não fique assustado nem se machuque na gaiola”, conta Pedroso.

A necessidade de criar um programa de proteção animal na Rio 2016 veio da especificidade da cidade sede dos Jogos que, diferentemente de Londres, onde ocorreram as competições passadas, é famosa por sua rica biodiversidade. “Além disso, há uma situação de abandono de animais muito complicada no município. Por conta dessa demanda, que percebemos durante as organizações dos Jogos, começamos a contatar ONGs parceiras no resgate desses animais, domésticos e silvestres”, explica Guilherme Andreoli, gerente de gestão animal, que pertence ao braço de sustentabilidade da Rio 2016.
Uma jiboia no refeitório

Um episódio que ilustra bem a importância do comitê de sustentabilidade ocorreu há poucos dias, quando uma jiboia foi encontrada, dormindo, na porta do refeitório da Vila de Mídia, onde ficam hospedados profissionais de imprensa. A ONG parceira Instituto Vida Livre, especializada no resgate e devolução de animais silvestres foi a responsável por solucionar o caso. “A cobra foi levada de volta para o seu habitat”, explica Andreoli.

O gerente de gestão animal afirma que as ocorrências partem dos próprios funcionários que atuam na rio 2016. Eles foram treinados para contatar a equipe de Andreoli assim que algum animal, selvagem ou doméstico, for encontrado em situação de perigo. “O objetivo é preservar a vida do animal sempre. Muitos estão em situação de rua e foram maltratados por pessoas em ocasiões que nada tem a ver com os jogos, mas se podemos resolver esse problema e tornar a vida deles melhor, faremos”, conclui.

A morte da onça Juma

Durante a passagem da tocha olímpica, a onça Juma, mascote do 1º Batalhão de Infantaria da Selva (BIS) de Manaus, foi morta com tiro de espingarda. O animal, uma espécie em extinção, foi exibido acorrentado e tentou fugir depois da cerimônia, avançando sobre um militar. O episódio, que chocou o mundo todo, escancarou o absurdo de uma tradição permitida por lei: o desfile de animais silvestres em eventos militares.

Em comunicado oficial, o Comitê Olímpico admitiu ter cometido um erro ao “permitir que a Tocha Olímpica, símbolo da paz e da união entre os povos, fosse exibida ao lado de um animal selvagem acorrentado (…). Estamos muito tristes com o desfecho e garantimos que não veremos mais situações assim nos Jogos Rio 2016”.

Em entrevista ao EL PAÍS, o coronel Luiz Gustavo Evelyn, do Comando Militar da Amazônia (CMA), disse que a história de Juma é parecida com as de outras cerca de 10 onças que vivem com Exército. “Elas chegam resgatadas de cativeiros, depois de terem sofrido maus tratos, e são atendidas pela nossa equipe de veterinários que faz parte do mesmo complexo militar”, conta. Ao todo, mais de 200 bichos são atendidos no Exército, alguns conseguem ser reinseridos na floresta, outros não. Era o caso da Juma.

Símbolo nacional, a onça-pintada está na lista de espécies ameaçadas do Ibama desde 2003. Maior felino do continente americano, é um animal territorialista, precisando de até 150m² para viver em liberdade na floresta. Originalmente distribuída por todas as regiões brasileiras, hoje tem na Amazônia sua principal área de resistência. Segundo relatório do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), há hoje cerca de 10.000 onças na floresta amazônica.

Por Eduardo Pedroso | El País 

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